• Sonia Monteiro

O mundo não é um lugar acolhedor...


A maravilhosidade da Vida, está em aprender a experimentá-la, a partir da experiência interna, de dentro pra fora.


Desde a sua concepção a velocidade do processo é incrivelmente intensa, primeiro pelo encontro vibracional de duas células que criam uma ressonância harmônica e finalmente dão “matching” e a partir disso um contínuo fluxo de transformação, até que fica pronto um novo ser físico, se isso não é absolutamente incrível, nada mais pode ser.

Aí vem um novo estresse, que é a sensação de morte, porque está na hora de sair do casulo, nascer para um novo mundo, e esse movimento exige um esforço, focalização e confiança, para ir em direção ao “Túnel de Luz”. Claro que isso acontece num fluxo natural, mas já produzindo impressões sensoriais que permanecerão ativadas durante toda a vida e então finalmente atravessa-se o portal para a primeira respiração.

Tudo isso acontece em conjunto com outro ser, a mãe, onde se experimenta uma conexão “telepática”, biológica profunda e também intensa, na qual se assimila aspectos emocionais deste ser que já tem toda uma história construída, seus fatos, seus motivos, seus porques.

Existem segredos nesta relação da gestação, um turbilhão emocional que acontece face a toda uma circunstância e contexto desta mulher e isso não é possível ser generalizado, pois existe uma infinidade de possibilidades, entretanto não deixa de ser uma relação muito íntima, a mais íntima e complexa.

Após esta maratona, inicia-se uma nova fase intensa de aprendizado, o primeiro setênio, esta primeira infância é absolutamente importante e carrega a “semente” do destino, pode definir como este ser irá encarar a vida.

Os fatos e acontecimentos da vida, forjam uma pessoa, na medida da experiência, que vão acentuando, minimizando, estruturando toda uma visão de mundo.

E a interatividade entre estas inúmeras versões de percepção de mundo, podem chocar-se, atritar-se, através dos relacionamentos.

E muito cedo é possível perceber que o mundo não é acolhedor, ele é hostil em diversos sentidos.

A compreensão emocional de si mesmo, é a maneira, pela qual produz autonomia, auto nutrição, possibilidade de lidar com as hostilidades de forma mais assertiva, nem sei se esta é a melhor definição, porque outro desafio são os próprios conceitos a respeito de emoções, mas enfim, digamos que é a caixa de ferramentas, ou se preferir as armas de defesa e proteção.

O mundo só será “seguro” se o sentimento e sensação interna forem de segurança, porque os seres adultos devem estar preparados para enfrentar as adversidades do mundo, as ameaças, as oscilações.

Todos os seres vivos estão nesta mesma condição, obviamente a raça humana não é diferente, mas sua característica diferenciada de racionalidade deveria ser uma vantagem, mas nem sempre, ou na maioria das vezes nem é bem utilizada, haja vista a “emocionalidade” que pode ser mais totalitária, e ela só se apazigua pelo autoconhecimento, aí podem então andar juntas, razão e emoção, solidárias e cooperativas.


O mundo não é um lugar acolhedor...

O esperado acolhimento está em encontrar o que necessita e não esperar que isso aconteça, enquanto você fica acuado esperando ser compreendido.

E também em você se tornar um ser acolhedor e compreensivo, cooperativo, assim como deve ser a própria natureza essencial, para então vibrar em ressonância, atrair e ser atraído para este encontro.

O objetivo do processo terapêutico é contribuir, auxiliar, caminhar junto no processo de autoconhecimento, no qual paciente e terapeuta estão em ressonância e progridem juntos, claro que é esperado que um ser que escolhe estar neste lugar no mundo, o faz, por um chamado da alma, uma necessidade profunda de curar a si mesmo, então se prepara e conduz a própria vida num aprendizado contínuo de si, para conseguir ressoar com o outro de forma digna, íntegra, sincera, eu não diria perfeita, mas leal sim, consciente deste papel.

Este lugar deveria ser um bom tanto de acolhedor, um lugar de abrigo, não acusatório, sentenciador, condenatório, apenas verdadeiro, de espelhamento, de iluminação...

Mas tenho observado que o Universo Terapêutico destes tempos, obviamente sem generalizar, acabou por cair nas redes de armadilha, e estão lá apontando falhas, fracassos, de tudo que não é parametrizado pelos conceitos de inteligência, aparência, comportamentos, sucesso, prosperidade.


Uma reprodução frenética de regras, de “tem ques”, de acusações infinitas de fraqueza, preguiça, procrastinação, sem falar, as palavras chave como vitimização, negatividade, reclamação, parece mais um verdadeiro convite a crucificação!!


O mundo não é um lugar acolhedor...

Estas acusações, não trazem um efeito motivacional, mais sim um aumento da angústia, “retraumatizam”, intensificam a ansiedade, e fortalecem a vergonha.

Quero mencionar também, as ofertas, as promessas, as garantias de resoluções de forma mágica, instantânea, imediata...

E o quanto se observa a compra de ilusões, o desejo de livramento de dores, sofrimentos, sem a necessidade de comprometer-se, envolver-se...

Infelizmente isso não é possível, sinto muito...muito mesmo...eu também gostaria que fosse apenas como arrancar uma roupa piniquenta, apertada, incômoda e sair nu, correndo, fugindo de algo, até chegar em solo seguro e perfeito....Mas...não é!!

A “Vida Adulta” precisa ser revelada, em algum momento, ela precisa vir a tona, do contrário, você continuará vivendo a “Criança Vulnerável”...






O mundo não é um lugar acolhedor, é habitado por um índice muito grande de crianças vulneráveis, que de sentir tantas dores, medos, tristezas, raivas, apenas retribuem de forma vingativa, e assim, se perpetua um mundo hostil, e aqui se inclui, as tantas fantasias românticas de como deveria ser cada papel experimentado neste mundo, que desejamos tanto que seja acolhedor.


Sonia Monteiro


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